-Como a China lidera a censura da Web no mundo

O senso comum diz que a Internet pode agüentar qualquer coisa. Tentativas de censurá-la são tão fúteis quanto tentar pregar gelatina na parede. Especialistas alegam que, se bloqueado, o fluxo de informação simplesmente encontra outra rota para atingir seu alvo. Pena que a China não esteja ouvindo os especialistas.

“Escudo de ouro” é o termo que as autoridades chinesas usam para o que talvez seja o sistema de censura mais sofisticado do mundo. Os críticos gostam de referir-se a ele como a Grande Muralha Firewall da China (GFC). Qualquer que seja o termo que você escolha, está claro que, nas últimas duas semanas, esta parede virtual venceu seu principal desafio de fogo.

A repressão chinesa no Tibete gerou protestos irados ao redor do mundo desde março, tanto na Internet quanto fora dela. A tocha olímpica provou-se um alvo particular para a ira dos ativistas em favor do Tibete -na República do Povo, contudo, o ciberespaço tornou-se uma zona inteiramente pró-China.

Levados pela mídia estatal, os usuários de Internet da China criaram formas ainda mais criativas de expressar sua raiva contra os manifestantes pró-Tibete. Quase que da noite para o dia, milhões de usuários do Windows Live Messenger acrescentaram um coração vermelho ao lado da palavra “China” aos seus nomes de contato. Um blogueiro escreveu em um portal popular, sina.com, que “a mídia ocidental conseguiu uma coisa positiva: uniu a nós, chineses”.

A ira contra os manifestantes culminou em pedidos de blogueiros individuais em portais como o people.com.cn que boicotassem – por exemplo- a Alemanha. (“Boicote a Volkswagen, boicote os produtos alemães, boicote a rede alemã Metro”.) Foi aí que, subitamente, as coisas mudaram, no entanto: aparentemente, o sistema não estava tão satisfeito com esses chamados às armas, que então sumiram repentinamente.

A República do Povo virtual segue leis diferentes do resto da Internet. Mas como os sentinelas comunistas do ciberespaço conseguem controlar tão precisamente o fluxo de informação?

Computadores de vigilância formam o esqueleto do sistema de segurança chinês, monitorando a maior parte do volume de comunicação on-line o tempo todo. As máquinas têm o suporte de um exército de censores do governo, estimados em mais de 30.000. Este esforço hercúleo está crescendo, enquanto os usuários de Internet se multiplicam a um número recorde. Em fevereiro, a China oficialmente foi o país com mais usuários de Internet no mundo (221 milhões contra 220,6 milhões de americanos). E o que acontece na China facilmente pode mudar a Internet como um todo. Os especialistas acreditam que o país já exportou seus métodos de censura inovadores para países como Irã e Vietnã.

Dezenas de pesquisadores da mídia agora estão estudando a arquitetura da Grande Muralha 2.0 com uma mistura de horror e fascínio. O que eles estão descobrindo é o quão surpreendentemente dinâmica, sutil e moderna é a censura do século 21.

Uma Web chinesa

Os pesquisadores observaram que a estrutura descentralizada da Internet não é suficiente para protegê-la do controle do governo. O libertário americano John Perry Barlow e seus colegas certa vez alegaram que os governos do mundo industrial “não têm soberania” no ciberespaço, mas Jonathan Zittrain diz que não é o caso. O acadêmico da Universidade de Oxford advertiu sobre “a emergência de uma Internet cada vez mais balcanizada. Em vez de World Wide Web (que significa rede mundial), é mais preciso dizer que temos uma Web saudita, uma uzbeque, uma paquistanesa, uma tailandesa e assim por diante.”

O recente artigo de pesquisa de Zittrain chamado “Acesso negado”, com colaboradores de universidades de elite como Harvard, Stanford e Cambridge, funciona como Atlas da censura da Internet. Os autores concluem que os métodos dos inspetores chineses são a vanguarda do campo – distintos não pelo uso de controles rígidos, mas por sua flexibilidade e criatividade.

Os Emirados Árabes Unidos podem ser tomados como exemplo contrário: a nação desértica tem leis relativamente claras e bloqueia o acesso a material questionável, como conteúdo sexualmente explícito, de uma forma bastante consistente previsível. Filtros estritos são empregados para impedir o acesso a qualquer site israelense, por exemplo, cujo domínio termina com .il.

Esse estilo estrito de controle de fronteiras é contrário à abordagem chinesa. “A GFC é descentralizada, flexível, discreta e se concentra acima de tudo em palavras-chave”, explica Daniel Zinn, aluno de pós-graduação do Departamento de Ciências da Computação da Universidade da Califórnia em Davis. O que isso significa é que, em vez de censurar domínios inteiros, somente páginas individuais contendo palavras definidas são bloqueadas. Freqüentemente, essas palavras estão associadas a três tópicos especialmente sensíveis na China – “Tibete”, “Taiwan” e “Tiananmen”- mas há uma série de outros, como “Falun Gong”, “Mein Kampf” e “Democracia”.

Uma tentativa de carregar uma página da Web suspeita em geral resulta em uma mensagem de erro. Então, a maior parte dos usuários tenta manter sua vida simples evitando termos de pesquisa arriscados. Assim podem surfar em paz.

A autocensura é mais eficiente

Esse jogo de gato e rato que coloca blogueiros contra censores faz parte da diversão para usuários mais rebeldes, que gostam de pensar em novos termos para tópicos politicamente carregados e assim passar a perna nos censores. Então, por exemplo, para encontrar informações sobre o massacre de junho de 1989 na praça de Tiananmen, a pessoa digita a data como código, por exemplo “198 964” (agora, entretanto, até esse código está bloqueado). Algumas vezes, em resposta a termos de pesquisa questionáveis, aparecem na tela pequenos personagens de desenho esbugalhados, com uniforme de polícia -um lembrete que o Big Brother está sempre surfando ao seu lado.

A força da GFC reside em sua imprevisibilidade. Apesar de milhares de censores trabalharem duro, enfrentam milhões de blogueiros. Seria impossível monitorar cada um de seus textos. Portanto, é muito mais eficaz usar sinais sutis para ameaçar usuários de Internet e fazê-los censurarem-se a si próprios.

Outra receita de sucesso é delegar a censura. Fornecedores de serviços de Internet, provedores de conteúdo e cafés de Internet assumiram a tarefa de monitorar páginas questionáveis. Os monitores do governo enviam atualizações às empresas várias vezes por dia, freqüentemente por mensagem de texto via telefone celular. Para evitar conflitos, é mais fácil os provedores exagerarem na cautela e censurarem mais, em vez de menos.

Os que não fazem isso enfrentam punições draconianas -que nem mesmo empresas americanas como Google pode escapar. O motor de busca da Google era inacessível na China até que, relutantemente, criaram uma versão censurada para os usuários chineses (apesar do lema corporativo da Google ser: “Não seja mal”.)

O efeito colateral deste bloqueio foi que o motor de busca chinês Baidu conseguiu mais clientes. Essa pode se tornar uma inovação para o governo -ao perceber que a censura também funciona como protecionismo. E a Google não foi a única: outras firmas globais de tecnologia americanas como Cisco e Microsoft também estão silenciosamente cooperando com os censores chineses. A controvérsia de 2004 sobre o papel da Yahoo na prisão do jornalista chinês Shi Tao ilustra como pode ser fina a linha separando o comércio e a colaboração. A Yahoo transmitiu os detalhes pessoais do jornalista ao governo chinês. Shi, crítico do governo, foi condenado a dez anos de prisão.

O caso de Shi não foi isolado. A organização pela liberdade de imprensa Repórteres Sem Fronteiras publicou números expondo a posição tênue dos usuários de Internet chineses dissidentes. Cerca de 48 dos 63 “ciber-dissidentes” presos em torno do mundo estão na China.

A Câmara dos Deputados americana convocou uma audiência depois do incidente da Yahoo. “Essas empresas nos dizem que vão mudar a China. Em vez disso, a China muda elas”, reclamou um congressista. Os Jogos Olímpicos fornecem ampla razão para os censores refinarem suas técnicas. Diante do grande número de jornalistas estrangeiros esperados em agosto, o governo criou uma espécie de versão paralela da Internet, restaurando o acesso à maior parte do site da BBC e da Wikipedia. O que jornalistas visitantes talvez não saibam, entretanto, é que as versões chinesas desses sites ainda estão bloqueadas.

Enquanto isso, os regulamentos continuam a endurecer. Uma recente mudança foi a determinação que todos os sites que permitem compartilhar vídeos privados estão sujeitos ao licenciamento oficial. Além disso, o Estado tem que ter uma participação majoritária no provedor desses sites. Por quê? Simples: os arquivos de vídeo são muito mais difíceis de filtrar do que os arquivos de texto. É claro que a Grande Muralha 2.0 não é impossível de romper, como salienta o especialista em mídia de Pequim Andrew Lih -de fato, ninguém diz que é. Ele comenta que “qualquer um que sabe o que está fazendo tem muitas formas de evitar a Grande Firewall”.

Os inúmeros truques disponíveis para iludir os censores e os espiões são tópicos perenes de discussão nas salas de bate-papo chinesas. Um dos instrumentos mais amados é o Gladder (de “Great Ladder”, ou “grande escada”) uma extensão para o “browser” que ajuda os usuários a escalarem a muralha virtual. O nome talvez seja engraçado, mas um blogueiro chinês de Changsha aconselha cautela no que concerne as escapadas de Internet: “Amanhã, o serviço de segurança baterá na sua porta” – uma verdadeira possibilidade que não tem a menor graça.

Fonte: Der Spiegel

Fonte: http://www.melodia.com.br

Advertisements

Lewer kommentaar

Verskaf jou besonderhede hieronder of klik op 'n logo om in te teken:

WordPress.com Logo

Jy lewer kommentaar met jou rekening by WordPress.com. Log Out / Verander )

Twitter picture

Jy lewer kommentaar met jou rekening by Twitter. Log Out / Verander )

Facebook photo

Jy lewer kommentaar met jou rekening by Facebook. Log Out / Verander )

Google+ photo

Jy lewer kommentaar met jou rekening by Google+. Log Out / Verander )

Connecting to %s

%d bloggers like this: