-O Atlas da religião no Brasil


O escritor francês André Malraux profetizou: “O século XXI será religioso ou não será.” Acertou quem percebeu ênfase na primeira opção e detecta, hoje, campos polireligiosos nos quatro cantos do mundo. Em alguns casos, como no Oriente Médio, esses campos viram arenas de disputas políticas a pretexto da defesa da fé. Em pé de guerra ou de forma pacífica, a crença religiosa vive a experiência do igualitarismo e da diversidade, uma exigência moderna do Ocidente.

No Brasil, onde confessionários, hóstia sagrada, vestes imponentes, anjos, santos e altares, rituais e símbolos da Igreja Católica sempre se confundiram com a história da religiosidade, a alternância de credo chega a transformar a sociedade. No início do século XX, quase 100% dos brasileiros se diziam seguidores do Vaticano. Cem anos depois, o catolicismo segue como maioria absoluta, mas o maior país católico do mundo entrou mesmo na rota da diversidade religiosa do mundo globalizado.

Atlas da filiação religiosa e indicadores sociais no Brasil, assinado pelos professores Cesar Romero Jacob e Dora Rodrigues Hees, da PUC-Rio, e pelos pesquisadores franceses Philipe Waniez e Violette Brustlein, associa pela primeira vez a cartografia à religião para jogar luz sobre a fé brasileira. Reúne 400 mapas, além de tabelas, gráficos e análises dos movimentos que levaram a Igreja Católica a perder em nove anos quase dez pontos porcentuais em seu rebanho: de 83,3% em 1991 para 73,9% em 2000. O Atlas identifica em que territórios e condições

Demográficas e sociais vem ocorrendo a transferência dos fiéis para as correntes evangélicas e para o grupo dos “sem religião”, que subiu de 4,7% para 7,4% da população. A debandada se concentra nas periferias dos grandes centros, na zona rural e nas fronteiras agrícolas, áreas com um fenômeno histórico em comum: a atração de migrantes que se tornam vítimas do desenraizamento cultural e do abandono do poder público.

“Há mais de dez anos a Igreja discute a diversidade e sabe que perderia fiéis nesse processo, mas não contava com uma diminuição tão acelerada. Durante 90 anos, de 1890 a 1980, perdeu dez pontos porcentuais. Na última década caiu mais de um ponto por ano”, compara Jacob. Com base nos dois últimos censos do IBGE, o estudo mostra e analisa as transformações sócio-religiosas em mapas federais, estaduais e metropolitanos. É um instrumento revelador para os estrategistas das religiões que disputam os fiéis – ou, em alguns casos, os eleitores. Em função da mistura inédita de fé e religião na campanha de Anthony Garotinho (PSB-RJ) nas eleições presidenciais, os pesquisadores cruzaram os dados sobre os votos do ex-governador e constataram que os lugares onde a Rede Record – controlada pelo bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus – tem mais retransmissoras coincidem com as maiores concentrações de pentecostais e com os melhores desempenhos do candidato. Ele teve menor votação nos locais onde o Brasil é mais católico.

Religião

Se os pentecostais cresceram de 6% para 10,6% em nove anos, o Atlas mostra que o avanço não se deu de forma homogênea. Na maior parte da região Norte e em grande parte do Centro-Oeste, eles chegam a mais de 16% da população, enquanto a Igreja Católica perde mais de 16 pontos porcentuais. A Igreja se mantém firme na zona rural, porém cada vez mais esvaziada pelo êxodo, bem como nos núcleos das capitais, com melhores indicadores sociais. É no interior do Nordeste que a influência do catolicismo permanece mais viva. Continua forte também na maior parte de Minas Gerais, Santa Catarina, no sul do Paraná e no norte do Rio Grande do Sul.

Os adeptos da tese de que há uma conspiração contra a soberania brasileira na Amazônia encontram um terreno fértil nos mapas, que detectam na região uma influência crescente de religiões que reúnem numerosos adeptos nos Estados Unidos, especialmente os missionários batistas, adventistas e da Assembléia de Deus. As duas primeiras são classificadas como tradicionais, enquanto a Assembléia, a maior das pentecostais, apresentou em áreas do Amazonas, Pará e Amapá um crescimento de mais de dez pontos porcentuais. “Não gosto de teorias conspiratórias, mas não sou ingênuo de achar que elas não existem. A região tem a maior reserva de água doce do mundo”, ressalta o pesquisador Jacob. No Nordeste, é visível a entrada dos pentecostais pelo oeste do Maranhão, litoral de Pernambuco e sul da Bahia.

As outras religiões que compõem o mosaico da diversidade estão presentes especialmente nas metrópoles, mas não interferem na batalha estatística entre católicos e evangélicos. Isso pode ser explicado, segundo os autores do trabalho, pela própria falta de interesse dessas religiões em ampliar seus domínios. O islamismo, a religião que mais cresce no mundo, não é significativo no Brasil: tem apenas 27,2 mil seguidores. É uma presença menor do que a do judaísmo (87 mil) e a do budismo (214,8 mil). Os seguidores da umbanda e do candomblé somam 515 mil e curiosamente não estão concentrados na Bahia, mas no Rio, São Paulo e Porto Alegre. Os espíritas lideram o ranking dos menores, com 2,3 milhões concentrados em São Paulo e no Rio.

Com a globalização, maior acesso à informação, à tecnologia e a respostas científicas para antigos mistérios divinos, era de se esperar que o mundo se distanciasse da religião. Mas não é o que acontece. “As pessoas buscam mais o sentido da vida e esse é um caminho natural para a religiosidade”, diz Regina Novaes, antropóloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto de Estudos da Religião (Iser). Outro fator explica mais nitidamente o poder de atração das igrejas evangélicas sobre os setores mais carentes da população: a auto-ajuda e a congregação social. “É a chave dos pentecostais”, afirma a antropóloga. Para ela, os evangélicos falam da vida real e de soluções para os problemas cotidianos, enquanto o catolicismo remete a salvação para depois da morte. É muito importante, também, o atendimento personalizado. A pregação pentecostal individualiza os fiéis: “Você é o escolhido por Deus.”

A operária aposentada Maria Pereira Rodrigues é um retrato evangélico no Brasil, migrante e desenraizado. Ela e o marido, Constantino Rodrigues, ambos de 54 anos, se mudaram há três décadas de Minas Gerais para Guarulhos, periferia da Grande São Paulo, onde trocaram o catolicismo pela Igreja Internacional da Graça. “Eu sofria de uma tosse alérgica que não me deixava dormir e consumia metade do meu ordenado em remédios. Fui a um culto da igreja e uma semana depois já não sentia nada”, conta Maria. Na esteira da “cura” ela levou para os cultos o marido, os dois filhos e as noras. O Atlas identifica uma categoria de trabalhadores predominante entre os pentecostais: a empregada doméstica. “O perfil deste grupo é de não-brancos com menor escolaridade e menor renda. Chama a atenção o alto porcentual de mulheres que trabalham como domésticas. Já os empregadores são, em maioria, católicos”, explica Jacob.

Vida nova

A identificação da empregada doméstica alagoana Maria das Dores Vieira da Silva com a Assembléia de Deus foi quase imediata. “Antes eu frequentava pagode, bebia e chegava na segunda-feira estragada. Tinha uma vida desregrada, minha alegria era passageira. Na igreja, mudei de vida e hoje tenho felicidade permanente” diz. Maria frequenta um templo em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Lá ela reza, se diverte e faz uma espécie de terapia. Trabalha em Ipanema, zona sul carioca, na casa da capixaba Martha Barroso, que, reforçando a tese, é católica. As duas, patroa e empregada, são o revestimento pacífico e predominante hoje nas relações entre os grupos religiosos. “Eu adoro ser católica, mas respeito as outras opções. Percebo que a igreja evangélica supre a vida social da Maria”, diz Martha.

Por coincidência, Martha e Maria moram no Rio de Janeiro, identificado pelo IBGE como o Estado de maior pluralismo religioso. O comerciante carioca Angelo Roberto de Siqueira Neto é a própria tradução da diversidade. Ele nasceu católico há 58 anos, fez a primeira comunhão e seguiu a tradição até a adolescência, quando se tornou mórmon. Depois, passou a questionar tudo e virou ateu. Na idade madura, se converteu ao espiritismo kardecista, que frequenta até hoje sem abandonar suas investigações filosóficas. Admira o budismo e faz meditação.Durante os meses em que morou na Bahia, conheceu o candomblé e a umbanda. Tudo é equilibrado pelo tai-chi-chuan, uma arte marcial com base espiritualista. “Praticar várias religiões só mostra que tudo leva ao mesmo lugar: a Deus.”

Se o avanço dos pentecostais se dá principalmente entre os mais pobres, moradores da periferia e migrantes, o catolicismo se mantém praticamente intacto na outra ponta, os brancos de renda mais alta e maior nível de escolaridade. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, 50 anos, médico e pertencente a uma tradicional família de Pindamonhangaba, interior do Estado, é um expoente do catolicismo. Ele e a mulher, Maria Lúcia, 51 anos, frequentam aos domingos, com os três filhos, uma igreja no Morumbi, onde têm seu apartamento. São devotos de Nossa Senhora Aparecida. Em discursos e palestras, o governador costuma citar frases de São Tomás de Aquino e Santo Agostinho. Uma de suas preferidas, de Santo Agostinho, diz: “Prefiro os que me criticam porque me corrigem aos que me adulam porque me corrompem.”

Como a família Alckmin, a maioria dos católicos é tradicional nos costumes. A experiência religiosa moderna, no entanto, tende a construir novos e flexíveis conceitos. A tese consta da pesquisa Desafios do catolicismo na cidade: pesquisa em regiões metropolitanas, realizada no ano passado pelo Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris). O trabalho, coordenado pela socióloga Sílvia Regina Fernandes, detecta anseios como o da atualização da Igreja Católica. É, por exemplo, o caminho da Renovação Carismática, que atrai muitos jovens. “Há uma tendência moderna em considerar como privadas as questões ligadas à sexualidade”, conclui a pesquisa. Ou seja, os católicos querem cada vez mais autonomia em relação a assuntos de foro íntimo, como casamento, métodos contraceptivos e opção sexual, temas que o Vaticano tenta manter sob o controle de suas rígidas tradições.

Na pesquisa do Ceris, grande parte dos católicos é a favor do segundo casamento (62,7%), do sexo antes do casamento (43,6%) e do divórcio (60%). Segundo Sílvia, “eles esperam que a Igreja promova debates e oriente, sem imposições”. Da mesma forma, o brasilianista John Burdick, que nasceu em Massachusetts (EUA) e viveu na Baixada Fluminense na década de 80, diz em seu livro Procurando Deus no Brasil que o “modelo da religião única deixou de ser satisfatório”. Em seu trabalho antropológico, Burdick flagra os católicos em migração para o pentecostalismo ou a umbanda. Ao fim de tudo, a constatação é de que religião, hoje, é um mercado livre. Do lado bom tem a palavra livre e do ruim, o mercado.

Fonte: CadeCristo

0 Responses to -O Atlas da religião no Brasil

  1. Ótima matéria.

    Parabéns pela publicãção.

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