-As duas faces da imprensa brasileira. Qualquer político pode falar sobre sua religião, exceto os evangélicos. Se assim o fizerem, parte da imprensa não comprometida com o bom jornalismao publicará que está ocorrendo a mistura de religião com política

Paes (prefeito eleito do Rio) elege padre Lino, da Vila Kennedy, como mentor espiritual

Paula Máiran, Jornal do Brasil

RIO – O prefeito eleito Eduardo Paes já sentiu nas narinas, exatamente dez vezes nos últimos quatro meses, o odor acre exalado pela vala de esgoto in natura que corre a céu aberto em frente à Paróquia Cristo Operário e Santo Cura D’Ars, em Vila Kennedy (Zona Oeste). Estava em busca das bênçãos do pároco José Carlos Lino de Souza, de 48 anos, que tornou-se cabo eleitoral de primeira hora do político católico. Mas, bem antes disso, o padre Lino já havia assumido o papel de mentor espiritual do ex-aluno do Colégio Santo Agostinho. Não por acaso, Paes aproximou religião e política.

Em 20 anos de atuação na paróquia da Vila Kennedy, o padre Lino se constitui atualmente num líder religioso cujo carisma pode ser medido pelo tamanho de seu rebanho – hoje estimado em mais de 5 mil fiéis, numa área submetida à pobreza e à violência, à qual Paes passou a visitar mesmo antes do início oficial de sua campanha eleitoral para a prefeitura.

Apresentados por um amigo em comum, o ex-dirigente do Vasco e ex-deputado federal Eurico Miranda, os cruzmaltinos Lino e Paes estabeleceram, à primeira vista, durante um jogo no estádio de São Januário, relacionamento de natureza tão mística quanto política – além de fraterna, já que ambos passaram a se considerar amigos.

Provação

O aspecto religioso da relação floresceu, no entanto, a priori. Logo num segundo encontro, em março deste ano, durante as Olimpíadas da Paz – evento com participação de atletas católicos de 252 paróquias do Estado, promovido pela Arquidiocese e pela Secretaria Estadual de Turismo, Esporte e Lazer – pasta da qual Paes era então o titular. Na ocasião, o sacerdote teve de aliviar, com conselhos e uma bênção especial, o coração desconsolado de Paes.

O então secretário de Esportes havia recebido a notícia de que não seria mais o candidato do PMDB à prefeitura, preterido na época pelo seu próprio partido, naquele momento, em favor do petista Alessandro Molon. Esse naufrágio da aliança PMDB-PT, com o retorno de Paes à disputa eleitoral culminada com a sua vitória nas urnas, o sacerdote interpreta como “um sinal de Deus, um milagre mesmo”.

Mas, se houve alguma ajuda dos céus, o pároco de Vila Kennedy não nega os efeitos concretos também de seus esforços terrenos para fazer decolar na Zona Oeste a campanha pemedebista. Tudo sob a aprovação, segundo Lino, do arcebispo do Rio, cardeal dom Eusébio Scheid, simpatizante de Paes.

A estratégia da campanha de cunho eclesiástico envolveu a realização de dois cafés e três jantares na paróquia do Santo Cura D’Ars, além de muita conversa no pé-do-ouvido de cléricos indecisos. Somente num jantar, em que a mãe de Lino, dona Zilma, de 65 anos, preparou um cordeiro, entre os comensais contavam-se 20 homens de batina, tornados agentes multiplicadores da campanha.

Homem que se define como de espírito mediador, “light na política e conservador no campo teológico”, o cearense filho de Mucuripe – que tem dom Hélder Câmara como como ícone de sua vida – refere-se ao futuro prefeito como um verdadeiro “instrumento de Deus na política”.

Simpatia e críticas

Petista que se declara simpático ao partido, porém nitidamente menos entusiasmado com a sigla do que nos tempos em que se filiou à legenda, em 1979, Padre Lino confessa que teve de desafiar as duras críticas de muitos de seus colegas de sacerdócio, especialmente da Zona Oeste, para se devotar a Paes.

– O Molon não se mexia nas pesquisas. Não saía do lugar. A candidatura dele estava mesmo perdida – justifica o pároco.

Antes de garantir o seu apoio, Lino diz que obteve de Paes, por precaução, o esclarecimento de que determinadas adesões à campanha não se refletiriam na defesa de bandeiras avessas à fé do celibatário. Caso, por exemplo, de alguns políticos com ligações suspeitas na área partilhada por bandos do tráfico e de milícias, e de Jandira Feghali.

– Ele me garantiu que Jandira não defenderia o aborto, por exemplo. E Paes tinha que aceitar esses apoios, ou não seria eleito. A disputa foi muito apertada – opina.

Milagres à parte, no campo profano da política municipal, padre Lino professa a sua fé na premissa de que o novo prefeito vai mesmo honrar compromissos assumidos. À comunidade que lhe rendeu o apoio eleitoral, Paes prometeu, segundo o sacerdote, uma Unidade de Pronto-Atendimento de Saúde (UPA), investimento em esportes e a recuperação do Parque do Mendanha, área de lazer hoje abandonada. Na região, repleta de lacunas sociais e urbanísticas, seria um bom começo, por exemplo, a prefeitura dar um jeito em valões fétidos como o que ofende os ares da Paróquia de Santo Cura D’Ars.

Fonte: JB

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